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My First Blog Post

“a arte de curar a alma”

“De são e de louco…”

Se é verdade que a linha que separa é cada vez mais ténue, também é verdade que temos de parar de falar da doença mental como se falava dos abortos nos anos 50. Existe. Não é o fim do mundo. E se der para rir a falar sobre ela…melhor. Porque rir, dizem, “é o melhor remédio”.

O fundo do poço

Há um dia em que acordamos e apetece-nos ficar na cama “só” mais 5 minutos. E adiamos o telefone duas ou três vezes. Levantamo-nos com esforço e arrastamo-nos até ao duche. Não nos apetece ir trabalhar. Mas vamos. O dia está uma merda. Chove a cântaros, está um frio filha da puta, e está tão cinzento que só apetece dormir. O nosso chefe é um estúpido, as tarefas parecem não acabar e a última vez que olhaste ao relógio eram 15h02 e 15 minutos depois (pensavas tu) eram 15h05.

Recebemos uma mensagem para ir beber um copo com amigos depois do trabalho. Mas não estamos com paciência. “Estou com uma enxaqueca!” Vamos para casa. Não nos apetece cozinhar. E nem conseguimos porque entretanto não lavámos loiça nenhuma. E não nos apetece. Só temos um garfo lavado. O frigorífico só tem embalagens vazias (não se percebe muito bem porquê…mas logo se tira) e os guardanapos foram substituídos por papel higiénico e a não ser que sejas filha/o do cruzamento entre o Mcguyver e a Maria de Lourdes Modesto não vais conseguir cozinhar um cu.

Então encomendamos aquela pizza que sabemos que não deviamos, mas que conforta por 5 minutos e fogo, tivemos um dia horrível e merecemos caramba!! Comemos a pizza familiar com extra enfarte do miocárdio e ficamos na sala, sem dormir, a tentar não pensar na culpa de termos comido uma pizza que alimentava uma família numerosa, a pensar que podiamos ter poupado o dinheiro da pizza e que precisamos de mudar os hábitos de poupança mas que não conseguimos…porque não vales nada. Estás a tentar não pensar na vida de merda que achas que tens, a tentar não pensar que amanhã vais ter que ir para um trabalho que odeias, e aturar o estúpido do patrão e evitar gritar-lhe que o novo estagiário dos recursos humanos se chama Félix e não Félis e muito menos Feles. E entretanto capotamos e ouvimos o alarme.

Adiamos 3 ou 4 vezes. Vamos à janela e está um calor insuportável. E resolvemos não tomar banho mais uma vez. Não conseguimos. Estamos exaustos. Não sabemos muito bem que dia é. Mas voltamos a mandar mensagem ao patrão a dizer que continuamos com “gripe”. E o “estúpido do patrão” diz-nos que temos que arranjar ajuda ou então tem que nos despedir. Os nossos amigos foram barrados tantas vezes que às tantas foram respeitando os nossos pedidos de quarentena, e afastaram-se.

Estamos ali. Sozinhos. Viciados (literalmente porque o cérebro vicia-se no estado químico e processos mentais que conhece) num processo de autocomiseração lamentável, a achar que a vida não tem sentido e que nada tem solução.

Chegámos oficialmente ao fundo do poço. Puta que pariu! E agora? Numa situação em que a ansiedade passa dos 0 aos 100 em segundos e está a PUTA DA LOUCURA, quimicamente há todo um after a acontecer no corpo, a respiração não acompanha o coração também não porque estamos a ser atacados (não se sabe muito bem pelo quê) e primitivamente há dois mecanismos que se podem activar: ataque ou fuga? É aqui que é muito importante perceber o seguinte: a ÚNICA solução para nos tirar deste estado de realidade alterada é A-TA-CAR.

A parte “boa” do fundo do poço é que …não há mais nada para baixo. E o único caminho: é para cima. E o que não faltam hoje em dia são pessoas que nos esticam cordas para nos tirar do poço. Mas atenção: elas só nos atiram as cordas.

A escalada? Essa é por nossa conta. Será difícil? Sim. Mas e daí?…normalmente todas as melhores a maiores aprendizagens o são.

Rita Isabel…quem?

Rita Isabel, 34 anos, fascinada por doença mental desde que viu o filme “Voando sobre um ninho de Cucus” mas que mal sabia na altura o quão ligada iria estar a esta temática. Vários anos depois, desespero, terapia, desespero, pesquisa, terapia, desespero (and so on porque o processo terapêutico é mesmo assim) resolvo escrever sobre a doença mental, na primeira pessoa. Não vai começar um movimento #metoo… mas espero que ajude pessoas a perder a vergonha e a pedir ajuda…e não vai ser tão falado como as saias do assessor da Joacine mas quem sabe se torne num assunto cada vez mais fácil de abordar.

Porquê este blog?

  • Mais do que “normalizar” o tema, é importante desdramatizar certas questões, falar abertamente e com alguma leveza e rasgar os rótulos que para nada servem, mostrando sobretudo que primeiro, não estão sozinhos, segundo, há soluções e terceiro e muito importante Não são loucos e Não são um fardo
  • Por outro lado escrever para mim é um prazer enorme e um processo terapêutico incrível e que pela partilha espero conseguir encontrar almas que tal como a minha precisem de remendo e que aqui encontrem um lugar seguro de partilha e pertença.

“Have I gone mad? I’m afraid so.
You’re entirely Bonkers.
But I will tell you a secret,
All the best people are.”

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